terça-feira, janeiro 13, 2026

Caju, São João Batista e mais: como cemitérios do Rio contam a história da cidade

Dos campos-santos criados para indigentes e escravizados aos grandes panteões nacionais, os cemitérios cariocas revelam a história do Rio de Janeiro — onde religião católica, caridade, memória urbana e gestão pública sempre caminharam juntas

Percorrer os cemitérios do Rio de Janeiro é transitar pela própria cidade. Poucos espaços urbanos revelam o passado de forma tão direta, tão concreta e tão pouco filtrada quanto os campos-santos cariocas. Entre alamedas silenciosas, túmulos antigos e mausoléus monumentais, repousam não apenas indivíduos, mas camadas inteiras da história urbana: a escravidão, a imigração, a pobreza, a fé, a política, a arte e o poder.

O Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, talvez seja o exemplo mais eloquente dessa cidade invisível dos mortos. Criado a partir do antigo campo-santo da irmandade da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, o Caju nasceu como espaço destinado aos indigentes, aos escravizados, aos doentes e àqueles que não tinham recursos para garantir uma sepultura digna. Com o passar do tempo, transformou-se num vasto complexo funerário, do qual se desmembraram áreas administradas por ordens terceiras, quadras destinadas a acatólicos e o cemitério da comunidade judaica.


Poucos lugares no Rio condensam de forma tão clara a história social da cidade. No Caju estão enterrados aqueles que quase nunca aparecem nos livros escolares: trabalhadores anônimos, africanos recém-chegados pelo Valongo, pobres assistidos por irmandades, homens e mulheres para quem a morte foi, muitas vezes, o primeiro e único registro formal de existência. O cemitério funciona como um verdadeiro arquivo urbano a céu aberto, revelando desigualdades profundas, mas também o esforço institucional de oferecer dignidade no fim da vida.

O Cemitério de São João Batista, em Botafogo, narra outra face dessa mesma história. Criado no contexto da reorganização funerária do século XIX, ele se consolidou como o grande panteão nacional. Presidentes da República, artistas, escritores, músicos, intelectuais e militares estão ali sepultados em mausoléus que são, muitas vezes, verdadeiras obras de arte. Mais do que um local de sepultamento, o São João Batista tornou-se um espaço de memória pública, visitado, atravessado e incorporado ao cotidiano da cidade.

Apesar das diferenças sociais e simbólicas, Caju e São João Batista compartilham um traço essencial: a permanência da linguagem religiosa católica. Mesmo após a secularização formal dos cemitérios, cruzes, anjos, imagens marianas e inscrições bíblicas continuam a dominar a paisagem funerária carioca. A morte, no Rio, nunca se tornou completamente laica ou impessoal. Ela manteve um vocabulário espiritual que atravessou o Império, a República e o século XX.

Durante séculos, esse universo foi organizado por uma lógica institucional que unia administração, fé e assistência social. A Santa Casa da Misericórdia, ao lado de irmandades e ordens terceiras, não apenas geriu cemitérios: garantiu sepultamentos gratuitos, cuidou dos campos-santos, reformou espaços, zelou por túmulos e manteve viva a ideia de que enterrar os mortos era um dever moral antes de ser um serviço. Tratava-se de uma gestão que não separava o ato administrativo do cuidado humano e espiritual.

Esse ciclo histórico chegou ao fim em 2014, quando a administração dos cemitérios públicos do Rio de Janeiro passou a ser exercida por concessionárias privadas. A mudança foi apresentada como necessária para modernizar a gestão, profissionalizar serviços e dar respostas mais eficientes a uma cidade complexa e em constante crescimento. Esperava-se que um novo modelo resolvesse problemas antigos e trouxesse maior organização ao cotidiano dos cemitérios.

Passados alguns anos, o cenário se mostra mais ambíguo. Há iniciativas de manutenção, ações sanitárias e projetos culturais que buscam integrar os cemitérios à vida urbana contemporânea. Ao mesmo tempo, surgem episódios que indicam que certos desafios persistem: debates sobre preservação do patrimônio funerário, disputas judiciais envolvendo taxas e serviços, além de reclamações pontuais de famílias que frequentam esses espaços. A sensação difusa é a de que a mudança de modelo não eliminou, por si só, todas as tensões em torno da morte na cidade.

Não se trata de afirmar que um sistema era melhor do que o outro, nem de ignorar a complexidade do Rio atual. Mas permanece, entre muitos cariocas, uma nostalgia discreta dos tempos em que a gestão dos cemitérios estava integrada a uma instituição cuja vocação histórica não se limitava à eficiência administrativa, mas incluía caridade, continuidade simbólica e presença religiosa.

No Rio de Janeiro, os cemitérios nunca foram apenas terrenos murados. Sempre foram lugares de memória, fé, arte e pertencimento. A forma como a cidade cuida de seus mortos — ontem e hoje — diz muito sobre como ela entende a si mesma. Talvez seja por isso que, mesmo após tantas mudanças, a pergunta continue no ar, silenciosa como esses campos-santos: modernizar era necessário, mas será que tudo aquilo que se perdeu no caminho pôde, de fato, ser substituído?

Essa dúvida, mais do que qualquer polêmica, mantém viva a história dos cemitérios cariocas — e a relação profunda do Rio com sua própria memória.

Texto de autoria de Bruna Castro.

Crédito da pesquisa:

https://diariodorio.com/caju-sao-joao-batista-e-os-outros-como-os-cemiterios-do-rio-contam-a-historia-da-cidade/

sexta-feira, janeiro 02, 2026

De Itaguaí a Santa Cruz: quando a literatura encontra a realidade

Pouca gente sabe, mas o bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, guarda uma curiosa ligação com a literatura brasileira. O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da região se chama Simão Bacamarte, nome do protagonista do conto “O Alienista”, de Machado de Assis.

Na famosa história, o Dr. Simão Bacamarte é um renomado médico e psiquiatra que, movido por um desejo científico de compreender a mente humana, funda em Itaguaí — cidade vizinha a Santa Cruz — um manicômio batizado de Casa Verde. É lá que ele interna pessoas consideradas “loucas” segundo seus próprios critérios, questionando os limites entre a razão e a loucura.

A coincidência vai além do nome: o prédio do CAPS Simão Bacamarte está pintado de verde, mesma cor da lendária Casa Verde criada pelo personagem no conto. Uma coincidência ou uma homenagem simbólica à obra de Machado de Assis? De qualquer forma, o fato mostra como a arte e a realidade se cruzam de maneira surpreendente, unindo Itaguaí, Santa Cruz e a literatura brasileira em uma mesma história.

Trecho de “O Alienista”, de Machado de Assis:

“Foi então que Simão Bacamarte resolveu fundar, à sua custa, uma casa de orates. Obteve da câmara de Itaguaí licença necessária, e edificou a casa na Rua Nova, com o nome de Casa Verde, por estar pintada dessa cor. Nela recolheu não só os loucos propriamente ditos, como todos os que, a seu juízo, padeciam de alguma moléstia mental.”

(Machado de Assis — O Alienista, publicado originalmente em 1882)

Foto principal: @valerialero

Cortesia: @descubrasantacruzrj 

Repostado do @acervosantacruz

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Santa Cruz celebra novo marco de fé e história: Paróquia Nossa Senhora da Conceição será elevada a Santuário

A Zona Oeste do Rio de Janeiro se prepara para viver um momento histórico que reafirma sua forte tradição religiosa e cultural. No próximo dia 6 de dezembro, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Santa Cruz, será oficialmente elevada à categoria de Santuário, título concedido pela Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

A celebração, que será presidida pelo Cardeal Arcebispo, simboliza mais do que uma conquista espiritual. Representa o reconhecimento de séculos de presença pastoral e do papel fundamental que a Igreja exerce na vida da comunidade local.

Para os moradores, a nova titulação fortalece um sentimento coletivo de pertencimento. O Santuário Nossa Senhora da Conceição passa a ser visto como um patrimônio religioso e cultural, reforçando a identidade do bairro e a força evangelizadora que sempre marcou Santa Cruz.

“A fé em Maria é um refúgio para quem enfrenta as dores do mundo moderno — ansiedade, depressão e tantos desafios. O Santuário será um espaço de acolhimento, escuta e esperança.”

Com a elevação a Santuário, a comunidade inicia uma nova etapa. Entre as novidades, está a criação da Pastoral da Escuta, prevista para 2026. A iniciativa formará voluntários para acompanhar pessoas em sofrimento emocional e espiritual.

O Santuário também ampliará o número de missas, horários de confissão e atividades pastorais, reforçando sua missão de atendimento aos fiéis e peregrinos.

Com o novo título, Santa Cruz reforça sua posição no mapa da fé carioca, estimulando também o turismo religioso e alimentando o sentimento de união entre os moradores.

“Queremos que o bairro seja lembrado não só por sua história, mas também pela devoção e pela vida comunitária que floresce aqui”, conclui o pároco.

Assim, o Santuário Nossa Senhora da Conceição se consolida como um símbolo de fé viva, tradição e esperança — um verdadeiro tesouro espiritual e cultural da Zona Oeste do Rio.

📍 Endereço: Praça Dom Romualdo, 11 – Centro de Santa Cruz / RJ

☎ Telefone: (21) 2418-0002

📱 Instagram: @pnscorgbr 

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