quinta-feira, agosto 28, 2025

Francisco Adolfo de Varnhagen

Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) o Visconde de Porto Seguro, foi um militar, diplomata e historiador paulista que foi o renovador da metodologia de pesquisa histórica brasileira e autor de vários estudos, onde se destaca a primeira grande obra de síntese sobre a história do Brasil: História Geral do Brasil, publicada em dois volumes entre 1854 e 1857.

Sua contribuição seminal e monumental lhe valeu o apelido de "Heródoto brasileiro". Também deixou relevante trabalho na historiografia e crítica da literatura.

Em seus primeiros trabalhos de história, entre 1835 e 1838 levam-no a localizar o túmulo do navegador português Pedro Álvares Cabral na Igreja da Graça, em Santarém, Portugal, onde passou boa parte de sua juventude. O mesmo estudo lhe franqueou a entrada, em 1840, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB que por determinação de Dom Pedro II, foi incumbido de desvendar os mistérios a cerca do Descobrimento do Brasil pelos portugueses.

Ao Descobrir o Túmulo de Cabral, Varnhagen impressiona-se com a ausência de qualquer menção às proezas do navegante. Na lápide estava gravado “Pedr’Alvares Cabral” e abaixo do seu nome, nada; no da sua mulher, sim, dizia-se que fora “camareira de Dona Maria”, uma das filhas de D. João III...

Varnhagen é um dos poucos intelectuais brasileiros que tem grande repercussão no mundo da cultura ocidental: seus estudos sobre Vespúcio são citados por todos os que se ocupam do célebre personagem. Seu livro “História Geral do Brasil" é considerado por muitos como a maior obra historiográfica sobre o Brasil Colonial. 

Sobre a descoberta do Brasil, declarou: “Todo mundo sabe que Porto Seguro, no sul da Bahia, indica o local, para sempre memorável, onde o Brasil foi descoberto por Cabral, e que essa descoberta marca o ponto de partida da civilização do vasto império brasileiro.”

Foi o principal professor de História do Imperador Dom Pedro II, com quem manteve correspondência por 30 anos, a maior parte em torno de temas puramente pessoais e de pesquisa histórica, mas também abordando eventuais “graças” que lhe poderia conceder D. Pedro II em aspectos de sua vida funcional.

Seu título de barão, depois visconde, de Porto Seguro, escolhido expressamente devido ao seu cuidado em localizar o exato local onde Cabral teria aportado no Brasil, é um dos resultados de sua intensa atividade como missivista sempre solícito à atenção do imperador.

A extensa e bem documentada obra de Varnhagen inclui, entre os mais notáveis de seus escritos: O descobrimento do Brasil, O Caramuru perante a história, Tratado descritivo do Brasil em 1587, História completa das lutas holandesas no Brasil, Épicos brasileiros, Florilégio da poesia brasileira, Amador Bueno, drama histórico, Cancioneiro e Literatura dos livros de cavalaria. Dele escreveu Oliveira Lima: “Francisco Adolfo de Varnhagen foi por certo o mais notório e o mais merecedor dos estudiosos do passado brasileiro; foi um ardente investigador, um infatigável ressuscitador de crônicas esquecidas nas bibliotecas e de documentos enterrados nos arquivos, um valioso corretor de falsidades e ilustrado conhecedor de fatos. O traço dominante da individualidade de Varnhagen é a paixão da investigação histórica à qual subordinou todas as suas manifestações de escritor."

Também foi diplomata de carreira e atuou em temas chaves da política externa brasileira em meados do século XIX. Em um Império rodeado de Repúblicas, sua representação diplomática se deu entre dilemas de Monarquia e República, Verdade e Imparcialidade, História e Diplomacia. Inserido em uma política externa amplamente euro-orientada, foi inconscientemente um dos precursores da americanização das relações do Brasil, atuando junto as repúblicas do Peru, Chile e Equador entre 1863 e 1867. Esta missão, entrecortada de numerosas e difíceis viagens, coincide com um período de grandes acontecimentos no cenário continental, notadamente a Guerra do Pacífico entre a Espanha, de uma parte, Chile e Peru, de outra; e a Guerra da Tríplice Aliança.

Varnhagen, patrono da historiografia brasileira teve o mérito, como diplomata e homem público, de pensar o Brasil de uma perspectiva geopolítica e geoestratégica. Para ele, a ação diplomática deveria orientar-se nessa direção.

Sua visão estratégica ajusta dois relevantes campos do conhecimento, a história e a geografia. A combinação de uma visão estratégica interna, envolvendo o binômio integridade-integração do país, e externa, faz dele um dos formuladores do pensamento diplomático e estratégico.

Ao escrever a história do Brasil, Varnhagen pretendeu moldar o futuro das nação, considerado pelos estudiosos como a essência do planejamento estratégico, o exame das tendências do passado e do presente, para poder projetar e influenciar rota preferencial entre diferentes opções. Para o diplomata Paulo Roberto de Almeida, Varnhagen pode ser visto como ideólogo liberal dotado de um “conservadorismo reformador”, que pensa nos problemas brasileiros e propõe respostas aos desafios atuais e futuros. Ele não apenas identifica os problemas a serem superados, como se dispõe a propor um conjunto de reformas que ajudariam a administração imperial a civilizar o Brasil.

Varnhagen moldou o pensamento histórico, antropológico e político das elites dirigentes do Brasil, desde o segundo reinado até a República de 1946. Como ressaltou Paulo Roberto Almeida, “fez-se presente em todos os cursos de História dos liceus e das faculdades de Direito, e nas demais instâncias da educação nacional durante mais de três gerações”

Fonte: Varnhagen em movimento: breve antologia de uma existência. Temístocles Cezar/ Varnhagen (1816-1878) Diplomacia e pensamento estratégico. Sérgio Moreira Lima.

domingo, agosto 17, 2025

O Prédio do Hospital da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro


O Prédio do Hospital da Santa Casa de Misericórdia na Rua Santa Luzia, cidade do Rio de Janeiro, construído entre 1836 a 1854, foi a sede da administração, biblioteca e as cadeiras de laboratório da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro entre 1836 a 1918.



A construção do prédio ficaria por conta de contribuição do Imperador Dom Pedro II e de subscrições voluntárias de cidadãos, que seriam recompensados com títulos e condecorações conhecidas como "impostos à vaidade". O expediente parece ter sido eficaz, pois viabilizou em parte a construção do prédio do hospício. Tendo sido colocada a primeira pedra em 1842, foi inaugurado em 1852, ficando definitivamente concluídas as obras em 1855. Seu projeto inicial, atribuído ao Tenente Coronel de Engenharia Domingos Monteiro, é, no entanto, discutido em função das alterações realizadas na fachada durante a construção pelo Arquiteto José Maria Jacinto Rabelo. O seu interior abriga uma capela, cujo projeto é atribuído ao Arquiteto Joaquim Cândido Guilhobel e decorada com trabalhos de talha de Antônio de Pádua e Castro.



Os principais centros urbanos do Brasil a maior parte do exercício da assistência caritativa aos necessitados coube as Santas Casas de Misericórdia, com o apoio de autoridades municipais. 






Em conformidade com esta politica legada pelos portugueses, ao chefe do Estado do Império do Brasil era permitido tomar parte dos assuntos desta irmandade.

No que tange à questão da assistência hospitalar, o período do Oitocentos marcou considerável crescimento da rede hospitalar nas cidades. Embora permanecesse muito dependente das associações de auxílio mútuo e de caráter privado, a rede passou a contar, além do Hospital da Misericórdia, com o Hospital dos Lázaros, mantido pela Irmandade do Santíssimo Sacramento de Nossa Senhora da Candelária; o Hospital Real Militar e o Hospital Central da Marinha, destinados às Forças Armadas; e os hospitais para irmãos leigos ou confessionais das diversas Irmandades e Ordens Terceiras.




Ainda sobre Hospitais, a Santa Casa possui ainda hoje, os hospitais de Nossa Senhora das Dores (Cascadura) e de Nossa Senhora da Saúde (Gamboa), além do Educandário da Misericórdia em Botafogo e o Asilo da Misericórdia em Jacarepaguá. Ainda controla o prédio da Fundação Romão de Mattos Duarte, no Flamengo, hoje desativado.

Lembrando que no Rio, a Santa Casa da Misericórdia pertence à Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia e Santa Isabel, fundada em 1582.

Créditos a @meurioeassim pelas imagens.

quarta-feira, agosto 06, 2025

Morro da Providência: a origem da primeira favela do Brasil

Origens e ocupação

O Morro da Providência, entre os bairros da Gamboa e Santo Cristo no centro do Rio de Janeiro, ganhou seu nome definitivo na década de 1920, mas torna-se conhecido como Morro da Favela a partir de 1897. Foi o primeiro assentamento espontâneo da cidade, formado por soldados veteranos da Guerra de Canudos e por ex-escravos e moradores de cortiços, sem moradia nem promessas cumpridas pelo Estado.



Esses soldados vindos da Bahia ocuparam terrenos baldios próximos à Central do Brasil e à pedreira local, construindo os primeiros casebres. A planta espinhosa “favela”, comum em Canudos, inspirou o nome dado ao lugar, que se tornou símbolo da habitação por necessidade.


Crescimento e contexto urbano

No início do século XX, a política de “bota-abaixo” comandada pelo prefeito Pereira Passos demoliu cortiços no centro, como o famoso “Cabeça de Porco”, e empurrou milhares de pessoas para os morros vizinhos. O Morro da Providência, então com estrutura improvisada, se expandiu rapidamente com barracos de madeira, caiadas e telhados precários.

As condições de vida eram extremamente difíceis: sem água encanada, eletricidade, saneamento ou coleta de lixo, a favela sofria com doenças, deslizamentos e despejos constantes. Ainda assim, sua população criava formas de sociabilidade e convivência apesar do abandono estatal.

Cultura e legado

A Providência se firmou como roteiro cultural significativo. Nasceu ali o samba — com rodas musicais que misturavam heranças africanas e europeias, marcando o espaço como berço da identidade cultural urbana negra no Rio.


O célebre escritor Machado de Assis nasceu em 1839 em uma das casas da Providência, e o morro inspirou obras artísticas e cinematográficas como o filme Favela dos Meus Amores (1935) e composições como a música “Morro da Favela” (1916).

Desafios acumulados

Ao longo do século XX, enfrentou diversas tentativas de remoção, especialmente em 1904 (suspensa pela Revolta da Vacina), 1948 e especialmente uma grave explosão de dinamite em 1968 que matou dezenas e deixou centenas sem moradia. Ainda assim resistiu às demolições que atingiram outras favelas do Rio.

Em 2010 foi instalada uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e, em 2014, inaugurado um teleférico no contexto do projeto Porto Maravilha — melhorias simbólicas que contrastam com a permanência da falta de infraestrutura básica para muitos moradores.

Considerações finais

O Morro da Providência é mais que um espaço geográfico: é marca fundadora da política urbana brasileira, porta de entrada da favela no imaginário nacional e espaço simbólico de resistência cultural. Dos primeiros casebres aos batuques das rodas de samba, passando pelos cortes urbanísticos e violências estatais, ele mantém a memória viva de quem construiu seu próprio abrigo — mesmo sem ser reconhecido como cidadão com direitos.

As imagens revelam um morro que se verticaliza desordenado e carregado de densidade humana, um núcleo inicial que abriria caminho para milhares de comunidades semelhantes. Sua história ainda ecoa hoje como chamada por justiça urbana, cultura soberana e reconhecimento.

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Disponível em e-book pela Amazon, e impresso pela Editora UICLAP – links na Bio e nos comentários.

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Repostado de Carlos A Coelho 

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